Sem álcool, tudo fica sem graça? Vamos conversar sobre esse tédio

Pessoa sentada no sofá com expressão de tédio, numa tarde sem planos
Álcool e Saúde MentalSérie · 04

Parou de beber e o sábado ficou sem graça? Antes de concluir que a vida perdeu o brilho, vale investigar o que exatamente perdeu a graça.

Andreia SetiAndreia Ferreira da Silva Sousa · Psicóloga Clínica · CRP 16/6482 · 7 min de leitura

Você decide passar um tempo sem beber e espera encontrar uma versão renovada de si. Talvez com mais disposição, alguma paz interior e uma relação surpreendentemente íntima com a garrafinha de água.

Mas chega o sábado à noite e você está no sofá pensando:

“É isso? Agora minha diversão é escolher uma série até ficar com sono?”

Pessoa sentada no sofá com expressão de tédio, numa tarde sem planos
Nem todo tédio é falta de álcool. Às vezes, é falta de descobrir o que ainda te dá prazer.

A cena não combina muito com a propaganda da transformação pessoal. Cadê a pessoa radiante, contemplando a vida pela janela? Por enquanto, temos alguém de cara fechada porque o delivery atrasou.

Então aparece uma conclusão tentadora: sem álcool, a vida ficou sem graça.

Antes de aceitar essa frase como verdade definitiva, vale investigar: o que exatamente perdeu a graça?

A vida inteira? Alguns programas? Ou aquele roteiro de diversão que, durante muito tempo, veio acompanhado de bebida?

Quando toda diversão tem o mesmo endereço

Imagine abrir sua agenda de lazer dos últimos meses:

Encontrar os amigosbar
Comemorarrestaurante com drinques
Descansarvinho em casa
Viajaronde tomar alguma coisa com vista bonita

Há comida, conversa, música e companhia nesses momentos. Mas a bebida pode ir ocupando uma posição tão central que fica difícil imaginar a experiência sem ela.

Quando ela sai de cena, aparece uma pergunta que parecia desnecessária:

“Do que eu gosto mesmo?”

Você sabe o que pede no bar. Talvez já não lembre o que escolheria fazer numa tarde livre se ninguém sugerisse uma mesa e um balde de cerveja.

Isso não significa que você perdeu a capacidade de se divertir. Pode significar que seu repertório ficou concentrado em poucas experiências.

E repertório não se amplia apenas ficando em casa, olhando para o vazio e exigindo que ele ofereça entretenimento.

O NIAAA, instituto norte-americano dedicado à pesquisa sobre álcool, inclui entre suas orientações desenvolver interesses e vínculos ou retomar atividades deixadas de lado quando beber passou a ocupar muito tempo.

Grupo de amigos rindo juntos num piquenique ao ar livre
Diversão sem bebida existe: o que aproxima as pessoas é a companhia, não o copo.

O cérebro participa. Mas cuidado com as explicações prontas.

O álcool atua em sistemas cerebrais envolvidos em recompensa, motivação e aprendizagem. Sua participação nesses circuitos ajuda a explicar por que o consumo pode ganhar importância e ser repetido.

Em pessoas com dependência, o uso repetido e excessivo pode estar associado a alterações na resposta às recompensas e nos sistemas de estresse. Esse é um contexto clínico específico, que não deve ser automaticamente atribuído a qualquer pessoa entediada numa noite sem beber.

Uma noite sem entusiasmo não permite concluir que sua dopamina “acabou”. Tampouco autoriza prometer que, depois de determinado número de dias, seu cérebro estará “reiniciado”.

Cérebro não é roteador. Desligar e esperar trinta segundos seria conveniente, reconheço.

A experiência depende do histórico de consumo, da saúde mental, do contexto e de outras condições individuais. Também merece uma pergunta menos espetacular e bastante útil:

Como anda a qualidade dos programas que você está fazendo?

Talvez aquele programa seja um pouco chato mesmo

Há encontros que são deliciosos pela conversa. Outros sobrevivem porque ninguém está prestando muita atenção na conversa.

Sem beber, você pode perceber que a música impede qualquer diálogo, que o cansaço bateu ou que aquele assunto já deu três voltas na mesa.

Isso não exige romper amizades nem anunciar uma nova superioridade espiritual. Significa reconhecer preferências.

Gostar das pessoase preferir encontrá-las de outro jeito.
Gostar de dançarmas não de passar cinco horas esperando alguém decidir ir embora.
Curtir um lugar com bebidamesmo sem beber. Não existe experiência obrigatória.

O cuidado é evitar transformar um programa ruim numa sentença sobre todas as possibilidades de prazer da sua vida.

A diversão também virou uma cobrança

Existe outra armadilha: esperar que toda experiência sem álcool seja imediatamente maravilhosa.

Você vai caminhar“Não senti nada demais.”
Começa um livro“Não me prendeu.”
Experimenta uma aula“Não entendi nada.”

Pronto. Três experiências e a investigação está encerrada.

Mas algumas atividades pedem familiaridade. Outras oferecem satisfação discreta. E outras simplesmente não combinam com você.

Um momento agradável pode ter menos intensidade do que você esperava e ainda merecer espaço. Pode ser interesse, curiosidade, envolvimento ou a satisfação de aprender algo.

Pessoa tomando café perto da janela com um cachorro no colo
Prazer também mora no simples: um café quentinho, a luz da janela, um carinho no pet.

Nem todo prazer chega derrubando a porta. Alguns precisam que a gente largue o celular para perceber que entraram.

Da reflexão à prática

Aqui, a proposta é explorar como você se envolve com uma experiência, ampliando as formas de perceber satisfação.

Infográfico: 3 jeitos de reencontrar o que te dá prazer sem álcool
Salve para lembrar quando a semana parecer sem graça.

1. Dê atenção inteira a um momento agradável

Escolha algo que já esteja acontecendo: uma música, uma refeição, o contato com seu animal ou alguns minutos ao ar livre.

Durante um pequeno trecho, deixe o celular de lado e procure detalhes concretos. Na música, acompanhe um instrumento. Na comida, perceba textura e temperatura. No carinho, observe o contato.

Por que isso ajuda?

Esse exercício de saboreamento convida a permanecer na experiência, sem exigir euforia. Você não precisa transformar o café numa revelação existencial. Perceber que ele está gostoso já serve.

2. Experimente o prazer de ganhar habilidade

Escolha uma atividade com uma dificuldade pequena e ajustável: aprender alguns acordes, montar algo, desenhar um objeto ou praticar uma sequência de dança. Defina uma etapa curta e repita em outra ocasião, observando o que ficou mais fácil.

Por que isso ajuda?

Você conhece uma satisfação diferente: a de se envolver e perceber progresso. Sem obrigação de monetizar o passatempo. O desenho pode continuar sendo apenas um desenho; ele não precisa abrir um perfil profissional.

3. Coloque uma previsão à prova

Antes de uma atividade cotidiana específica, anote quanto imagina que vai se envolver nela, de zero a dez. Depois, avalie o envolvimento real.

Por exemplo: “Acho que vou me interessar dois por preparar essa receita.” Ao terminar, talvez tenha sido cinco. Talvez tenha sido um.

Por que isso ajuda?

Se “nada vai me interessar” estiver guiando suas escolhas, comparar previsão e experiência ao longo de algumas tentativas permite verificar essa ideia em situações concretas, sem aceitá-la antecipadamente.

Quando a falta de prazer merece avaliação

Tédio ocasional é diferente de perder o interesse por quase tudo. Se essa perda persiste, interfere na rotina ou vem acompanhada de tristeza, desesperança e outras mudanças importantes, procure avaliação profissional.

A perda de interesse ou prazer pode fazer parte de um quadro depressivo e não deve ser explicada automaticamente pela retirada do álcool.

Você não precisa fingir entusiasmo para provar que está bem.

Talvez alguns programas continuem ótimos. Outros precisem mudar. E alguns interesses ainda estejam esperando uma oportunidade de serem descobertos.

A pergunta “como vou me divertir sem beber?” pode, aos poucos, ganhar uma continuação:

“E o que eu ainda não descobri que gosto de fazer?”

Fontes

NIAAA · National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (EUA). Álcool e sistemas de recompensa, motivação e estresse no cérebro; orientações sobre retomar interesses e vínculos.

NIMH · National Institute of Mental Health (EUA). Perda de interesse ou prazer como possível sinal de depressão.

Rethinking Drinking (NIAAA). Estratégias práticas para quem quer mudar a relação com a bebida.

Uma reflexão para levar com você

O tédio de agora pode ser só o espaço vazio que a bebida deixou. E espaço vazio também é lugar para coisa nova.

Se mudar a relação com a bebida está difícil, ou se a falta de prazer está pesando, a terapia pode ajudar a atravessar essa fase com mais leveza.

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Andreia SetiAndreia Ferreira da Silva Sousa · Psicóloga Clínica · CRP 16/6482 · @andreiaferreirapsicologa

Nota de cuidado: este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional.

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Andreia Seti · Andreia Ferreira da Silva Sousa, Psicóloga Clínica CRP 16/6482

Andreia Seti é o nome com que Andreia Ferreira da Silva Sousa, psicóloga clínica (CRP 16/6482), assina seus conteúdos. Atende por terapia online no Brasil e para brasileiros no exterior, com base na Terapia Cognitivo-Comportamental.