Bebi de novo. Estraguei tudo?

Pessoa sentada na beira da cama pela manhã, olhando pela janela com expressão pensativa
Álcool e Saúde MentalSérie · 06

Um episódio de consumo merece atenção. Mas ele não tem autoridade para decidir, sozinho, quem você é nem para onde você vai.

Andreia SetiAndreia Ferreira da Silva Sousa · Psicóloga Clínica · CRP 16/6482 · 7 min de leitura

Você tinha decidido ficar sem beber. Passou por encontros, atravessou fins de semana, descobriu que conseguia dizer “hoje não”. E, olha, nem foi tão dramático assim.

Até que, numa noite, bebeu.

No dia seguinte, antes mesmo do café, sua cabeça já tinha aberto uma audiência:

Acusação 1“Eu sabia que não ia conseguir.”
Acusação 2“Joguei tudo fora.”
Sentença“Agora tanto faz.”

É impressionante a agilidade desse tribunal. Não ouviu testemunhas, não examinou o contexto, não deu direito de defesa. Mas a sentença já saiu, com carimbo e tudo.

Só que reconhecer um episódio é uma coisa. Transformar esse episódio numa definição sobre quem você é, é outra bem diferente.

O que aconteceu merece atenção. A conclusão de que nada mais importa merece ser questionada.

Pessoa sentada na beira da cama pela manhã, olhando pela janela com expressão pensativa
Uma noite difícil pode pedir revisão do plano. Ela não tem poder de apagar tudo o que você já construiu.

O perigoso “já que…”

Repare como essa expressão é prestativa:

Já que bebi ontem…posso beber hoje.
Já que saí do plano…volto na segunda.
Já que perdi a sequência…perdi tudo.

Perceba o salto: uma decisão que foi contra o seu objetivo passa a servir de justificativa para outras decisões que também afastam você dele. É o famoso “já que estou na chuva…”, só que com consequências.

No livro Dependência química: prevenção, tratamento e políticas públicas, organizado por Alessandra Diehl, Daniel Cruz Cordeiro e Ronaldo Laranjeira, a discussão sobre prevenção de recaída aborda o chamado efeito de violação da abstinência. Nesse modelo, a culpa e a interpretação de “tudo ou nada” depois de um lapso podem favorecer a continuidade do consumo.

Traduzindo para a vida real: você bebe, interpreta isso como prova de incapacidade e, a partir daí, desistir começa a parecer o caminho mais coerente.

A cabeça pega um episódio e tenta transformá-lo em destino.

Só que “aconteceu” e “vai continuar acontecendo” são frases diferentes.

Um episódio não conta sozinho a história inteira

Na literatura clínica, costuma-se diferenciar duas situações:

LapsoUm retorno pontual ao consumo.
RecaídaA retomada de um padrão problemático.

O CAMH, centro canadense de saúde mental e dependências, ressalta que essa distinção depende do contexto e da gravidade de cada situação.

Não é uma competição de nomenclatura. Muito menos um jeito elegante de chamar algo de “só um lapso” para dispensar cuidado.

Mesmo uma única ocasião pode trazer consequências importantes. O que se bebeu, em que condições, quais riscos aconteceram e como você ficou depois: tudo isso precisa entrar na conversa.

Mas entender a gravidade não exige decretar que todo progresso evaporou.

As semanas anteriores continuam tendo acontecido. As habilidades que você praticou não foram apagadas por uma noite.

Em palestra sobre o tema, o psiquiatra Flávio Pechansky usa a imagem de alguém aprendendo a caminhar: uma queda não elimina o aprendizado. É uma comparação útil, desde que não transforme recaídas em algo inevitável ou inofensivo.

Você não precisa cair para aprender. Mas, se caiu, precisa de condições para se levantar e rever o caminho.

A vergonha costuma sugerir isolamento

E aí vem aquela vontade de sumir. Não contar para ninguém. Desmarcar a consulta. Evitar justamente quem acompanhou sua decisão.

“Vou voltar quando estiver melhor.”

Faz sentido como impulso. Mas, se você está em tratamento, esse episódio é exatamente o tipo de informação que o cuidado precisa receber. Esconder um lapso da terapia é um pouco como esconder a febre de quem está cuidando da sua saúde: alivia a vergonha na hora e atrapalha o tratamento depois.

Pessoa em sessão de terapia online por videochamada no notebook, conversando com a psicóloga
Contar um lapso na terapia não é confissão: é informação que ajuda a ajustar o cuidado.

O CAMH recomenda examinar o que levou ao consumo, o que o manteve e o que ajudou a interrompê-lo, além de rever as estratégias de prevenção. A ênfase está em aprender e retomar o cuidado, não em punir.

Isso permite trocar uma pergunta que humilha por perguntas que orientam:

Em que pontoo plano deixou de funcionar?
Haviaapoio suficiente?
O tratamentoprecisa ser ajustado?

“Sou um fracasso” parece uma explicação, mas não oferece nenhuma informação útil. É uma frase muito severa e pouco competente.

Retomar não precisa de uma data bonita

Existe uma fantasia curiosa de que mudanças só podem começar em dias oficialmente autorizados: segunda-feira, primeiro do mês, aniversário, Ano-Novo.

Se o episódio aconteceu na terça, aparentemente o resto da semana fica liberado para demolição.

Mas o cuidado não precisa esperar uma cerimônia de reinauguração, com fita vermelha e discurso.

O NIAAA, instituto norte-americano de pesquisa sobre álcool, orienta que um retorno ao consumo seja entendido como um revés que pode exigir ajustes, e não como fracasso completo. A recomendação é retomar o caminho e procurar apoio.

Retomar pode começar por reconhecer com precisão o que aconteceu e rever o plano com um profissional. Em situações de dependência física, isso inclui avaliar a segurança de interromper o consumo. Recomeçar com cuidado não é sinônimo de fazer tudo sem ajuda.

Pessoa caminhando num parque arborizado pela manhã, com expressão tranquila
Retomar o cuidado pode começar numa terça-feira comum, sem esperar segunda nem dia primeiro.

Da reflexão à prática

As propostas abaixo ajudam a organizar a resposta a um episódio de consumo. Não substituem avaliação clínica, especialmente quando há perda de controle recorrente ou riscos importantes.

Infográfico: 4 passos para a manhã seguinte depois de beber
Salve para lembrar caso a manhã seguinte venha com tribunal.

1. Reconstrua a sequência procurando os pontos de mudança

Quando estiver sem efeito do álcool e em condições de refletir, descreva a sequência concreta: decisões, acontecimentos, acesso à bebida e continuidade do consumo.

Por exemplo: “Aceitei ficar mais tempo; meu transporte foi embora; eu não tinha outra saída planejada; aceitei a bebida.”

Depois, identifique um ponto em que uma proteção poderia ser acrescentada: transporte próprio, horário combinado de saída ou revisar aquele contexto na terapia.

Por que isso ajuda?

O objetivo é encontrar uma intervenção possível. “Nunca mais vou vacilar” tem bastante entusiasmo e pouquíssima instrução de uso.

2. Prepare um plano para o caso de o primeiro limite ser ultrapassado

Muita gente planeja como não começar, mas fica sem orientação nenhuma se beber.

Elabore com antecedência, de preferência com seu profissional, uma resposta no formato: “Se eu consumir álcool apesar do meu objetivo, então vou…”

Complete com ações observáveis: sair do contexto com transporte seguro, interromper a situação de risco e comunicar o episódio ao profissional que acompanha você.

Por que isso ajuda?

Esse plano não autoriza o consumo. Ele evita que um imprevisto encontre você sem nenhuma proteção seguinte.

3. Avalie o progresso com mais de uma medida

Se você acompanha os dias sem beber, pode continuar. Mas inclua outros indicadores ligados ao seu objetivo: adesão ao tratamento, episódios de perda de controle, situações de risco e o tempo que levou para retomar o cuidado.

Por que isso ajuda?

Um contador registra uma sequência, mas não consegue representar sozinho toda a mudança. Essas medidas não diminuem a importância da abstinência quando ela é necessária: ajudam a enxergar o percurso sem apagar informações relevantes.

Responsabilidade também é aceitar cuidado

Se o retorno ao consumo se repete, o plano precisa ser reavaliado. Talvez seja preciso ampliar o acompanhamento ou modificar o tratamento. Vergonha não substitui essa avaliação.

Onde buscar apoio

No Brasil, a UBS pode acolher a demanda, avaliar necessidades e orientar o acesso à rede, incluindo o CAPS AD quando indicado.

Quem mantém consumo elevado e prolongado, sobretudo com histórico de abstinência, deve buscar orientação médica antes de interromper o consumo de forma abrupta, pois pode haver complicações graves.

Você pode reconhecer: “Isso foi sério.”

E acrescentar: “Preciso rever meu cuidado.”

Não é necessário completar com “não tenho jeito”.

O episódio que aconteceu importa. A resposta que você constrói a partir dele também.

Fontes

BRASIL. Ministério da Saúde. Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Brasília: Ministério da Saúde.

CENTRE FOR ADDICTION AND MENTAL HEALTH (CAMH). Materiais sobre lapso, recaída e prevenção de recaída. Toronto: CAMH.

DIEHL, A.; CORDEIRO, D. C.; LARANJEIRA, R. (org.). Dependência química: prevenção, tratamento e políticas públicas. Porto Alegre: Artmed, 2011.

NATIONAL INSTITUTE ON ALCOHOL ABUSE AND ALCOHOLISM (NIAAA). Materiais sobre recaída, retomada do cuidado e riscos da abstinência. Bethesda: NIAAA.

PECHANSKY, F. Palestra sobre álcool e dependência.

Uma reflexão para levar com você

Uma noite não apaga um caminho. O que você faz na manhã seguinte também faz parte da história.

Se você teve um lapso e está com vergonha de voltar, a terapia é um bom lugar para recomeçar: sem sermão, sem julgamento e com um plano mais realista.

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Andreia SetiAndreia Ferreira da Silva Sousa · Psicóloga Clínica · CRP 16/6482 · @andreiaferreirapsicologa

Nota de cuidado: este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional.

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Andreia Seti · Andreia Ferreira da Silva Sousa, Psicóloga Clínica CRP 16/6482

Andreia Seti é o nome com que Andreia Ferreira da Silva Sousa, psicóloga clínica (CRP 16/6482), assina seus conteúdos. Atende por terapia online no Brasil e para brasileiros no exterior, com base na Terapia Cognitivo-Comportamental.