“Eu só bebo socialmente.” E a sociedade, pelo visto, não para de se reunir

Grupo de amigos rindo ao redor de uma mesa num encontro à noite, com luzinhas e copos na mesa
Álcool e Saúde MentalSérie · 08

Uma investigação sobre essa curiosa habilidade humana de transformar qualquer encontro numa ocasião perfeitamente justificável para beber.

Andreia SetiAndreia Ferreira da Silva Sousa · Psicóloga Clínica · CRP 16/6482 · 8 min de leitura

Existe uma frase que merece entrar para o patrimônio cultural brasileiro.

“Eu só bebo socialmente.”

Ela costuma ser dita com uma tranquilidade admirável. Às vezes, até com um certo orgulho. Como quem apresenta um atestado de bons antecedentes.

“Não, imagina, eu não tenho esse hábito de beber. Só socialmente.”

E pronto. Assunto encerrado. Afinal, ninguém está bebendo por qualquer motivo. Existe sempre uma ocasião legítima:

Sextaporque a semana acabou.
Sábadoporque finalmente é sábado.
Domingoporque a família se reuniu.
Quartaporque alguém fez aniversário.
Quintaporque amanhã já é praticamente sexta.

Quando percebemos, a vida social virou uma espécie de congresso permanente. Com programação extensa, participantes animados e serviço de bebidas incluído.

Mas existe uma pergunta que raramente fazemos:

Quando alguém diz que bebe socialmente, está falando sobre quanto bebe ou apenas explicando por que bebe?

Porque são coisas bastante diferentes. E talvez seja justamente nessa diferença que more uma conversa interessante.

“Só socialmente”: uma expressão que explica por que a gente bebe, mas quase nunca diz quanto.

A bebida foi convidada. Mas alguém perguntou se ela precisava ir?

Pense na última vez que você organizou um encontro com amigos. Provavelmente alguém perguntou o que levaria para beber. Normal.

Agora tente lembrar se alguém perguntou, com a mesma preocupação, quais seriam as atividades da noite. Talvez ninguém.

Porque, em muitos encontros, a bebida não é exatamente uma opção. Ela já faz parte da estrutura do evento.

Churrascotem cerveja.
Jantartem vinho.
Festatem drinque.
Praiatem alguma coisa gelada.

E comemoração sem álcool, para algumas pessoas, parece uma reunião que esqueceu de contratar o entretenimento.

O curioso é que ninguém precisa explicar por que está bebendo. Mas quem decide não beber frequentemente precisa apresentar uma justificativa:

Pergunta 1“Está tomando remédio?”
Pergunta 2“Está grávida?”
Pergunta 3“Está fazendo dieta?”
Pergunta 4“Está doente?”

É impressionante. Você pode beber cinco cervejas e ninguém perguntar absolutamente nada. Mas peça uma água e, de repente, a sua vida passa por uma auditoria.

Peça uma água no churrasco e prepare-se: a sua vida pode passar por uma auditoria.

Em determinados ambientes, não beber desperta mais curiosidade do que beber demais.

E isso diz bastante sobre o que aprendemos a considerar normal.

O organismo não recebeu o convite para o churrasco

Agora vem uma parte menos divertida, mas necessária.

Do ponto de vista da saúde, o corpo não diferencia uma dose de álcool tomada por tristeza daquela consumida numa festa de aniversário. O organismo não recebe o etanol e pensa:

“Ah, mas foi no casamento da prima. Vamos abrir uma exceção.”

Seria maravilhoso ter um fígado compreensivo, que analisasse as circunstâncias e concedesse benefícios por ocasião especial. Infelizmente, a fisiologia não trabalha com esse tipo de negociação.

Os riscos relacionados ao álcool dependem de fatores como quantidade consumida, frequência, padrão de uso, características individuais e condições de saúde.

A Organização Mundial da Saúde esclarece que não existe um nível de consumo completamente livre de riscos. Isso não significa que uma taça ocasional tenha o mesmo risco que beber grandes quantidades todos os fins de semana. Os riscos não são iguais.

Mas também não desaparecem porque a bebida veio acompanhada de amigos, música boa e uma tábua de frios.

“Socialmente” descreve onde você bebe. Não informa, necessariamente, quanto bebe nem o que isso representa para a sua saúde.

A vida social pode ser uma ótima assessora de imprensa

Existe uma coisa fascinante na maneira como justificamos nossos comportamentos. Não gostamos apenas de fazer escolhas. Gostamos de ter boas explicações para elas.

E “eu só bebo socialmente” é uma explicação particularmente eficiente. Ela transmite uma ideia de controle, de moderação, de que existe uma fronteira muito bem estabelecida entre beber por prazer e ter algum problema com a bebida.

Só que essa fronteira não pode ser identificada apenas pelo local onde o álcool é consumido.

Uma pessoapode beber sem companhia de vez em quando e não apresentar transtorno por uso de álcool.
Outrapode consumir quantidades elevadas em praticamente todos os encontros sociais e desenvolver consequências importantes.

O contexto, isoladamente, não define o problema. É preciso considerar o padrão de consumo e os seus efeitos.

Mas nós adoramos uma comparação tranquilizadora:

Pelo menos…“eu não bebo durante a semana.”
Pelo menos…“eu só bebo com os amigos.”
Pelo menos…“eu nunca bebo sem companhia.”

Repare em quantas vezes o “pelo menos” aparece quando queremos avaliar um comportamento sem precisar examiná-lo muito de perto. Ele pode até trazer uma informação verdadeira. Mas não responde a todas as perguntas.

Existe uma diferença entre buscar informações para compreender a nossa relação com o álcool e procurar argumentos para encerrar a investigação antes de começar.

Quando a vontade é sua. E quando é do grupo?

Imagine a cena. Você chega a uma confraternização. Alguém oferece uma cerveja. Você nem estava pensando em beber. Mas aceita: afinal, está todo mundo bebendo.

Depois vem outra. E outra. Em determinado momento, alguém pergunta se você quer mais. Você olha para o copo, pensa por aproximadamente meio segundo e responde:

“Pode trazer.”

Agora, uma pergunta. Você realmente queria aquela próxima bebida? Ou simplesmente continuou participando de um comportamento que já estava acontecendo?

Não estou sugerindo que as pessoas sejam incapazes de escolher. Muito menos que todo consumo social aconteça por pressão. Mas as normas sociais influenciam nossas decisões. Às vezes, de maneira explícita. Outras, tão discretamente que mal percebemos.

E há uma diferença entre gostar de beber e sentir que beber faz parte do papel que precisamos desempenhar naquele grupo.

Talvezvocê goste genuinamente de vinho.
Talvezvocê aprecie uma cerveja.
Ou talveza bebida tenha se tornado tão previsível nos encontros que você já nem se pergunte se está com vontade.

São situações diferentes. E só você pode começar a observar qual delas descreve melhor a sua experiência.

“Mas eu não sou alcoólatra!”

Calma. Ninguém fez esse diagnóstico.

Aliás, vale esclarecer: o termo clínico atual é transtorno por uso de álcool, e a avaliação envolve critérios específicos. Não é a presença de uma cerveja no churrasco que determina esse diagnóstico.

Sinais que merecem investigação
  • beber repetidamente mais do que pretendia;
  • ter dificuldade para reduzir o consumo;
  • continuar bebendo apesar de consequências negativas.

Mas existe algo curioso na maneira como conversamos sobre saúde. Parece que algumas pessoas só se autorizam a questionar um comportamento quando ele já se tornou um problema muito grave. Como se a prevenção fosse uma intrometida.

Defesa 1“Mas eu trabalho.”
Defesa 2“Mas eu pago minhas contas.”
Defesa 3“Mas eu não sou dependente.”

Tudo isso pode ser verdade. Só que a pergunta não precisa ser “Eu tenho uma dependência?”. Ela também pode ser:

“A maneira como estou bebendo combina com a vida e com a saúde que quero ter?”

Você não precisa esperar uma crise para fazer essa pergunta. Assim como não precisa esperar o motor do carro fundir para começar a prestar atenção naquela luz que acendeu no painel.

Da reflexão à prática

A proposta não é transformar a próxima confraternização num seminário sobre álcool. É apenas sair do piloto automático e observar algumas coisas que costumam passar despercebidas.

Infográfico: 4 passos para sair do piloto automático do beber socialmente
Salve para lembrar no próximo convite que já chegar com o copo incluído.

1. Descubra quantas vezes a sociedade convocou você

Durante duas semanas, registre todas as ocasiões em que bebeu. Mas não anote só a quantidade: observe também o contexto (jantar, churrasco, visita, aniversário, encontro de trabalho, fim de semana).

Depois, olhe para o conjunto. Você bebe de vez em quando em eventos específicos ou praticamente todo encontro social inclui bebida?

Por que isso ajuda?

Não existe resposta certa para preencher o registro. O objetivo é trocar uma impressão genérica por informações concretas.

2. Faça um convite diferente

Escolha alguém de quem você gosta e proponha um programa em que o álcool não seja a atração principal: um café demorado, uma caminhada, um cinema, um passeio pela cidade, um almoço seguido de alguma atividade.

Observe a experiência. A conversa muda? O encontro fica mais curto? Você sente falta da bebida ou de algum aspecto do ritual?

Por que isso ajuda?

Não é uma competição para provar que você consegue ficar sem álcool. É uma maneira de ampliar as suas possibilidades de convivência.

3. Pergunte quem está decidindo

Na próxima vez que alguém oferecer uma bebida, faça uma pequena pausa antes de responder e pergunte a você:

  • “Estou com vontade?”
  • “Eu escolheria beber se estivesse aqui sem companhia?”
  • “Estou aceitando porque quero ou porque parece mais fácil acompanhar os outros?”

Não é necessário anunciar essas perguntas para a mesa inteira. Aliás, o garçom provavelmente agradece.

Por que isso ajuda?

A pausa ajuda a reconhecer o que realmente participa da sua decisão: a sua vontade, o hábito ou a expectativa do grupo.

4. Aposente a expressão por uma semana

Durante sete dias, tente não usar “bebo socialmente” para descrever o seu consumo. Se alguém perguntar, responda de maneira concreta:

  • “Costumo beber aos sábados e domingos.”
  • “Bebo em alguns jantares do mês.”
  • “Quando saio com meus amigos, geralmente tomo quatro ou cinco cervejas.”
Por que isso ajuda?

Descrições assim não são diagnósticos e precisam considerar o tamanho e a concentração das bebidas. Mas oferecem muito mais informação do que uma expressão que pode significar praticamente qualquer coisa.

Quando procurar ajuda

Se você identificar dificuldade de controlar o consumo, prejuízos que se repetem ou sintomas de abstinência, procure avaliação profissional.

Pessoas com dependência física podem precisar de acompanhamento médico para interromper o álcool com segurança.

Afinal, você bebe socialmente ou socializa bebendo?

Talvez você tenha chegado até aqui pensando: “Mas agora não pode nem tomar uma cerveja com os amigos?”

Pode fazer as suas escolhas. A questão nunca foi transformar cada encontro num julgamento moral. Nem declarar que todo mundo que bebe está escondendo um problema.

A questão é perceber como certos comportamentos se tornam tão comuns que deixam de ser examinados.

Às vezesrepetimos porque gostamos.
Às vezesporque aprendemos.
Às vezesporque é o que todo mundo faz.
E às vezesporque nunca experimentamos fazer diferente.

Talvez você descubra que bebe de vez em quando e está confortável com as suas decisões. Talvez perceba que bebe mais do que imaginava. Talvez descubra que algumas das melhores conversas da sua vida aconteceram sem uma única gota de álcool.

Duas amigas conversando e rindo num café da manhã ensolarado, com xícaras e frutas na mesa
Algumas das melhores conversas da vida acontecem sem uma única gota de álcool.

E talvez o churrasco continue sendo excelente mesmo quando alguém aparece com uma garrafa de água. O que seria, convenhamos, uma descoberta revolucionária para certos grupos de WhatsApp.

No fim, não se trata de proibir a bebida de entrar na festa. Trata-se de lembrar que você também recebeu o convite. E que deveria poder escolher como quer participar.

Porque uma coisa é beber quando você quer. Outra, bastante diferente, é beber porque parece que todo mundo já decidiu por você.

Fontes

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. 5. ed., texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2023.

ANDERSON, B. O. et al. Health and cancer risks associated with low levels of alcohol consumption. The Lancet Public Health, v. 8, n. 1, p. e6-e7, 2023.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Global status report on alcohol and health and treatment of substance use disorders. Genebra: OMS, 2024.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Álcool: fatos e riscos para a saúde. Genebra: OMS.

Uma pergunta para continuar a conversa

Se amanhã todos os seus amigos decidissem passar um mês sem beber, você continuaria sentindo vontade de beber com a mesma frequência? Não precisa responder para ninguém. Mas talvez valha a pena pensar.

Se você percebeu que o “socialmente” anda aparecendo em quase toda a agenda, a terapia é um bom lugar para olhar para isso com curiosidade, entender o que está por trás desse padrão e escolher com mais liberdade, sem sermão e sem julgamento.

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Nota de cuidado: este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional.

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Andreia Seti · Andreia Ferreira da Silva Sousa, Psicóloga Clínica CRP 16/6482

Andreia Seti é o nome com que Andreia Ferreira da Silva Sousa, psicóloga clínica (CRP 16/6482), assina seus conteúdos. Atende por terapia online no Brasil e para brasileiros no exterior, com base na Terapia Cognitivo-Comportamental.